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O efeito de “Cinquenta Tons de Cinza” | | Amores imperfeitos

Amores imperfeitos

O efeito de “Cinquenta Tons de Cinza”

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Quando contei para alguns amigos e outros tantos conhecidos que estava lendo “Cinquenta Tons de Cinza*” criou-se uma espécie de reboliço de proporções inesperadas. Se estivesse num estádio diria que o som que poderia se assemelhar ao “UHHHHHHHHHHHHHH” que a torcida faz ao lamentar o gol perdido pelo seu time. Alguns me falaram para não ler “é péssimo”, outros me disseram “você está louco, é um livro para mulheres”.

Eu não falei que estava me inscrevendo para os treinamentos do talibã, para uma seita satânica ou que tinha uma doença contagiosa, apenas comentei que estava lendo “Cinquenta Tons de Cinza”.

Como uma criança quando falam para não fazer isto ou aquilo, aqueles pedidos e avisos insistentes me estimularam a ficar ainda mais curioso pelo livro. Mas até aquele momento não tinha saído da quinta página – na qual a senhorita Steele ainda era virgem e o único tapa que tinha levado na vida tinha sido o de uma amiguinha aos cinco anos de idade.

Nos últimos meses cansei de ver pessoas (mulheres, vou ser sincero) lendo o livro em todos os lugares: no metrô, na praça de alimentação, na fila de banco e até subindo as escadas, por incrível que possa parecer. Todas tinham uma característica em comum: um tímido sorriso, acompanhado de um brilho no olhar. Era como se estivessem prontas para dar uma risada, mas se continham.

Não vou negar que no começo tive um certo receio de abrir o livro em um lugar público. Quem sabe influenciado pelos meus amigos, quem sabe porque o que tinha lido  “sem querer” por cima do ombro de alguma ávida leitora coraria até uma das gatinhas das “Brasileirinhas”.

Pensei em colocar uma capa falsa ou até em tirar a capa, mas como não estava lendo um manual de como fazer uma bomba caseira, decidir tirar todos esse preconceitos da minha cabeça:  estava apenas lendo “Cinquenta Tons de Cinza”.

Efeito Cinquenta Tons

Sentado na sala de espera do oftalmologista, estávamos eu e o meu livro, com aquele quase sorriso querendo fugir e com o característico brilho no olhar. Na minha frente, uma mulher muito bonita me olhava sem parar. Pensei que se tratava de uma conhecida, mas não era. Antes de Anastásia levar uma bela surra dei uma olhada e lá estava ela quase que sorrindo sem tirar o olhar do meu. Foi quando me perguntou “Está gostando do livro?”.

Foi a primeira prova do efeito “Cinquenta Tons”. Aconteceu o mesmo em outras situações, as mais tímidas apenas sorriam, mas outras eram mais diretas e me perguntavam se gostava da Ana e até se tinha algo em comum com o Sr. Grey.  Definitivamente o livro era um imã de atrair mulheres, curiosas e surpreendidas por um homem estar lendo o livro.

Com muito respeito sempre respondia o que achava de cada personagem. E, com um sútil gesto, retribuía o sorriso. 

 Um livro ruim

Fui atrás dos meus amigos e colegas, primeiro dos que me falaram que o livro era muito ruim, depois daqueles que tinham afirmado que era uma leitura para mulheres.

Nenhum deles tinha lido o livro, mesmo assim falaram que era péssimo. Me perguntei o motivo? Será que era porque todas as mulheres tinham adorado?

Cheguei à conclusão de que era exatamente isso: a maioria dos homens tinha ciúme do sucesso do livro. E o que mais me surpreendeu é que não se conformavam que elas gostassem tanto do sr. Christian Grey, o personagem principal.

Já entrando na fase investigativa e jornalística propriamente dita, um amigo casado há mais de 10 anos com uma prestigiosa médica me disse “não aguento mais a minha esposa, toda hora lendo essa porcaria”.

Um colega achou que a mulher estava mudando, que aquilo era pornografia pura e até estava disposto a colocar um detetive para segui-la, pois desconfiava que estava sendo traído.

Tinha aqueles que culpavam uma amiga, uma parente ou uma colega de trabalho por ter indicado o livro à sua amada, “são umas depravadas que estão te levando para o mau caminho”.

Foi assim que um livro que nunca tinham lido se transformou num livro não só ruim, mas péssimo.

Somente para mulheres

Depois de analisar cada uma das situações (o livro ruim e o efeito do mesmo) percebi que realmente se tratava de uma obra para mulheres.

Elas adoram porque se sentem felizes e realizadas ao ler cada página. E como todos sabem a felicidade muitas vezes incomoda, principalmente quando não somos nós que a proporcionamos e sim um senhor cheio de tonalidades cinzas.

Alguns homens não percebem que a melhor maneira de conhecer uma mulher é sabendo do que ela gosta, e a melhor maneira de agradá-la é gostar e respeitar de forma sincera o que ela ama e a faz feliz.

*Tenho três confissões a fazer: A primeira é que não gostei do livro (pelo menos cheguei a essa conclusão depois de ter lido 50 tons de cabo a rabo). A segunda é que comprei um chicote, algemas, cordas e um par de braçadeiras. A terceira, que minha esposa ao me ver chegar em casa sai correndo e se tranca no quarto ao estalido da primeira chicotada. Realmente o efeito dos “Cinquenta Tons” é real.

Marcelo Puglia Marcelo Puglia

Marcelo Puglia

O jornalista e escritor uruguaio Marcelo Puglia mora em São Paulo desde os anos 80. É especialista em relacionamento amoroso e publicou em toda a América Latina nove livros sobre amor, sexo, infidelidade com muito humor.



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