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"Comi a pimenta mais forte do mundo e sobrevivi", diz repórter do Terra

21 de julho de 2010 10h48 atualizado em 23 de julho de 2010 às 20h07

A repórter Natalia Areia experimentou a pimenta mais ardida do mundo. Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

A repórter Natalia Areia experimentou a pimenta mais ardida do mundo
Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

Natalia Areia

O dia era apenas mais um, e eu estava degustando pratos com a pimenta indiana bhut jolokia, única que ultrapassa 1 milhão na escala de pungência Scoville (cada unidade dessa escala equivale a quantidade de vezes que um extrato da pimenta precisa ser diluído para que ela seja neutralizada, veja matéria relacionada). A bhut foi criada pelos indianos a partir do cruzamento das outras pimentas mais fortes de que se têm notícia, isso há cerca de dez anos, e está virando febre por aí, sendo importada por sites e cultivada por chilli heads (como chamam os viciados em pimentas).

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Quem a arrumou pra mim foi Fabiano Marçal, um dos pioneiros a se tornar fã da jolokia no país. Esse chilli head é quem está divulgando esse tempero furioso Brasil adentro, e fazendo muita gente experimentá-la. Inventou até o nome "jolokiano" para quem vira "adepto". Depois de muitos pratos e drinques cheios de pimenta, e de Marçal me contar dos muitos efeitos, de como não iria me arrepender, e da sensação do depois, fui convencida a comer "aquilo", que só de olhar arde, e só de cortar, ela sua sozinha, literalmente. Vou repetir: ela sua. E sozinha. Mas para ele é tão natural quanto comer uma maçã.

Meu fruto tinha aproximadamente 8 cm e a grossura de três dos meus dedos, muito maior do que geralmente é e, segundo Marçal, eu seria a primeira mulher do Brasil a fazer a proeza de comer um fruto inteiro, já que nenhuma havia tido a coragem. As reações dos (homens) que tentaram foram várias: alucinações, desmaios, horas a fio de queimação, minutos sem conseguir dar nenhuma palavra e dores fortes no peito.

Todo chilli head que se preze come pimenta crua, como degustação, ou apenas para testar o poder de fogo. "Tem louco pra tudo", esse foi meu primeiro pensamento, principalmente ao assistir aos vídeos das pessoas provando. Mas aí você vai entendendo - e entrando na onda. Para pegar a bhut Jolokia na mão, é aconselhável fazê-lo com luvas. Vai que depois você coça o olho ou resolve fazer xixi. Também não é bom lavar a mão se encostou em uma, vai espalhar a capsaicina, substância que causa o ardor, e vai se arrepender. Então lá vou eu: luvas na mão para colocar a maldita na boca. Câmera ligada, coração disparado, todo mundo rindo (sim, porque eu contava com uma plateia ansiosa). Coloco pra dentro sem pensar muito, mal cabe na boca, tem que empurrar. Mastigo. Mas-ti-go. Mas-tiiiiii-go.

-Pode engolir? Po-de en-go-lir?
Para degustar, precisava ficar com ela na boca por mais de 30 segundos.
-Ai! PODE ENGOLIR?, gritei.
Engoli. Levantei do sofá, que estava quente. Arranquei a jaqueta. Fui até a pia cuspir, estava salivando muito. Fabiano disse que salivar era normal, cuspir seria pior. Ele me mandou engolir. Hein? Engoli. Minha perna começou a tremer. Não consegui falar. As pessoas me perguntavam o que estava sentindo. Não consegui falar.
-Mas é ardência, pô!

Peguei uma colher de requeijão. Não se pode tomar água, nem nada, só queijo ou leite, o resto espalha a capsaicina, mas tudo que eu queria era uma água gelada. Como requeijão. Me deu uma vontade de por pra fora. Melhor não. Fui até a janela, tossi muito, salivei muito, cuspi muito. Pessoas falavam comigo e eu não sabia quem eram, nem o que falavam. Era muita adrenalina: meu corpo tremia, meu lábio tremia, estava toda quente, saía muita lágrima, mais tosse, parecia que iria vomitar. Enjoo.

-Socorro!
Metade do meu corpo estava para fora da janela. Me perguntavam onde doía. Consegui responder:
-Boca, garganta e estômago.
E o coração?
-Sei lá do meu coração! Estou quase pulando da janela! Faz quase dez minutos e o ardor começou a estagnar, não a baixar, mas pelo menos para de aumentar. Consigo respirar, consigo ver quem está ao meu lado, consigo falar para câmera o que estou sentindo. Tá ardendo tudo!

Falo palavrões. É impossível não falar! Quando o efeito passou um pouco, deitei na cama. Dali só levantei tempos depois. Passei o resto do dia leve, zen, devagar. Com vontade de ficar na cama. Senti dores no estômago, mas estava tão leve que me senti bem. Relaxei tanto que dormi 16 horas naquela noite. Se eu comeria de novo? Me pergunta daqui uma semana.

Redação Terra