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Elogio demais faz mal aos filhos, dizem pesquisadores

07 de fevereiro de 2010 20h45

Os elogios aos filhos devem ser limitados e sinceros. Foto: Getty Images

Os elogios aos filhos devem ser limitados e sinceros
Foto: Getty Images

Michelle Achkar

Ficar repetindo que seu filho é brilhante e talentoso pode provocar efeito totalmente contrário ao desejado. A informação é um balde de água fria nos pais que, por uma mistura de instinto com teorias de educadores, acreditam incentivar bons resultados, aumentando a autoestima dos pequenos.

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Análise conduzida pela pesquisadora Carol Dweck, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, sobre 150 pesquisas sobre elogios feitas ao longo de 15 anos, revelou que estudantes elogiados em excesso tornam-se avessos a riscos, esforçam-se menos e são menos motivados. Estudantes com os QI (Quociente de Inteligência) mais altos da turma atingiram resultados abaixo dos obtidos pelos com os de QI menores após ouvir que eram brilhantes pouco antes da prova. Outro estudo feito com 400 crianças na cidade de Nova York mostrou que elas tiveram resultados 20% menores em testes após ouvir a frase "Você deve ser boa nisso".

Estudos da American Association for Psychological Science também mostram que os elogios não ajudam a obter melhores posições na carreira, nem diminuem violência ou alcoolismo. Esses são apenas alguns dos dados que embasam a tese do livro Nurture Shock (Choque na Criação), dos educadores norte-americanos Ashley Merryman e Po Bronson, que analisaram mais de 200 mil páginas de pesquisas em publicações científicas. Com isso eles querem provar que o subtítulo do livro é a mais pura verdade. "Why everything we think about raising our kids is wrong" (Por que tudo o que sabemos sobre criar nosso filhos é errado). O livro ainda não tem tradução para o português, mas pode ser encontrado nas livrarias brasileiras.

O principal ponto que a dupla combate é um dos 10 tópicos do livro: o excesso de elogios que hoje predomina na relação entre pais e filhos, que tem origem na teoria da profecia autorrealizadora, da década de 1970, que propõe que o que foi dito irá (ou tem grandes chances) de acontecer.

No caso de Ashley, a teoria comprovou o que ela já vivenciava na prática. Fundadora de um centro de auxílio a crianças em Los Angeles, ela não via seus elogios surtirem efeitos positivos. "Quando descobri o que os elogios realmente fizeram, fiquei horrorizada. Trabalho com crianças carentes falando para elas 'Você é maravilhosa!'. E quando li os efeitos disso, fiquei atônica, senti raiva. Pensei 'por que ninguém me falou isso antes?'", disse em entrevista ao jornal inglês The Times.

Nurture Shock quer provar que, apesar do instinto de amar e proteger os filhos, a maioria das ações dos pais em relação ou diante dos pequenos é "poluída de um pot-pourri de desejos, tendências morais, modismos, histórico pessoal e psicologia ultrapassada'.

Os cuidados com as crianças são extremamente vulneráveis à má ciência e a falsos profetas porque os adultos são ansiosos a ponto de abraçar qualquer conselho que esteja na moda. Essa foi a conclusão de um dos autores, Po Bronson, que, ao parar de fazer elogios o filho a todo momento usando frases feitas como "Você é ótimo" ou "Estou orgulhoso de você", percebeu que era ele, e não a criança, quem sentiu alívio. "Percebi que usava as frases como forma de expressar meu amor incondicional, como se fosse um tipo de panaceia para as ansiedades dos pais modernos", afirmou à publicação britânica.

Equilíbrio
Mas a recomendação passa longe de adotar postura severa e crítica o tempo todo. Diz que os elogios devem ser limitados, sinceros e mais sobre os esforços feitos do que pelas conquistas. Essa é a visão do professor de psicologia do desenvolvimento Lino de Macedo, do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo). "É preciso buscar um equilíbrio entre o negativo e o positivo: ou é marcação cerrada ou superproteção. Os dois extremos apresentam problemas", afirmou.

De um lado, a criança que nunca foi criticada ou não ouviu muitos "nãos" pode tornar-se arrogante, não conseguir ouvir críticas e ter dificuldades no reconhecimento do outro ou apresentar autoestima baixa e mostrar-se frágil. "Se os pais só fazem afirmações bacanas, independentemente do que o filho fez, a imagem que fica desse comportamento é a de que tudo é possível, permitido, tudo o que ele faz é bom e maravilhoso, que ele é nota 10, 'gostosão'", disse.

O especialista diz que as crianças não têm referências e precisam ser proibidas, corrigidas, impedidas e respeitar limites, sempre que necessário. "Mas há pais que só dizem 'não', apontam o que os filhos fizeram de errado ou não atenderam às expectativas. Essas crianças podem se tornar adultos ressentidos, pois nunca foram elogiadas."

Além de buscar equilíbrio, ao apontar o que a criança fez de errado, deve-se dar explicação dentro de uma perspectiva positiva e de maneira que o pequeno entenda. Macedo aponta ainda que a colocação deve ser feita em relação à coisa ou ao ato e não diretamente à criança. "É preciso dizer que está bravo com o que ela fez e não com ela", afirmou.

Para o professor da USP, esse monitoramento constante tem como principal resultado a sensação de que os pais se importam com a criança, seja com as coisas boas ou ruins que ela fizer.

Outras teorias
Além de combater o excesso de elogios gratuitos feitos aos filhos, os autores Ashley Merryman e Po Bronson também atacam outras teorias em alta na educação das crianças.

Entre elas estão a de que pedir a um adolescente que seja grato pode ser a causa da sua infelicidade; que programas de TV educativos podem ensinar às crianças como se tornar um praticante de bullying mais sofisticado; e que colocar pessoas de raças diferentes numa mesma sala de aula não ajuda a diminuir o racismo.

"Esse livro corrige muitas bobagens que vêm sendo incutidas na sociedade há mais de 100 anos. Não quisemos pôr lenha na fogueira, mas ampliar a visão dos fatos. Se o livro tornar as pessoas céticas em relação às iniciativas educacionais, então ótimo", afirmou Po ao The Times.

Especial para Terra