Democratizar o design é um dos pontos cruciais na carreira deste designer inovador e brasileiríssimo. Seu conceito de morar inclui autoestima, cultura popular, memória e inclusão. Tudo isso sempre fez parte do trabalho de Marcelo Rosenbaum a serviço de grandes empresas, como Fiat, Leroy Merlin, Tok & Stok, Oxford, Jatobá, Fademac, Melissa e WGSN, entre outras.
Agora, ele amplia seu olhar para produtos dirigidos às classes C, D e E. "Sempre tive interesse nesse mercado. Desde 1999, tenho o sonho de desenhar móveis e outros produtos para lojas populares", conta. O sonho começa a se concretizar com o lançamento de sua nova marca, Rosenbaum De Coração, em março, que pretende oferecer produtos para esse nicho.
O primeiro fruto da idéia é uma linha de toalhas de plástico para mesa em parceria com o Grupo Cipatex, que está em produção e deve chegar às lojas populares em dois meses (o preço ainda não foi definido). São quatro estampas criadas por Rosenbaum, cuja inspiração vem de elementos brasileiros: palhinha, renda, coco, papagaio. A previsão é que sua nova marca alcance, até 2010, cerca de 90 itens licenciados com empresas dos segmentos de cama, mesa, banho, cozinha e editorial.
Com escritório em São Paulo, ele grava uma vez por mês o programa Lar Doce Lar, do Caldeirão do Huck, na Rede Globo, onde entra na casa do povo brasileiro para reformar e decorar - o que é uma grande fonte para perceber as necessidades do cotidiano e formatar suas ideias em relação à democratização do design.
Ele falou com exclusividade ao Terra sobre esses e outros assuntos no intervalo entre as gravações do programa de rádio De Coração Pra Você, na Rádio Globo AM (SP, RJ e BH). Rosenbaum falou ainda sobre suas viagens à Santa Catarina, onde toca um projeto social com desabrigados pelas chuvas de novembro de 2008; e os outros projetos paralelos. Confira a entrevista:
Terra - Você acaba de lançar sua marca, Rosenbaum De Coração, voltada às classes C, D e E. Por que o interesse nesse público? Marcelo Rosenbaum - Sempre tive interesse nesse mercado. Desde 1999, tenho o sonho de desenhar móveis e outros produtos para lojas populares. Fui atrás e agora estou concretizando. Acho que é uma necessidade pensar em bom design, que mexe com memória, estimula emoções, tudo isso com qualidade e conforto.
Quais produtos a sua marca vai produzir?
O primeiro produto a entrar no mercado este ano são as toalhas de plástico para mesa, também um grande sonho meu. Essa linha, em parceria como Grupo Cipatex, tradicional fabricante do produto, pode revestir a mesa de todos os brasileiros, pois terá preço acessível.
Esse produto vai seduzir também as classes A e B?
Sim, eu crio para todos. As toalhas são acessíveis pelo preço, mas não quero excluir com isso outras classes sociais. Eu não desenho para um nicho apenas. O design, a criação é para todos.
Por falar em design, como você analisa o Brasil nesse aspecto?
É um dos países mais bem vistos internacionalmente e serve de referência em design. É representado por grandes designers, como os irmãos Campana. Preciso falar mais?
Mas, até pouco tempo atrás, o Brasil copiava muito design de fora.
E copia ainda, assim como a China. Mas, comparando com o início da minha carreira, isso mudou muito mesmo. Hoje há uma produção originalmente brasileira. Mas muita gente ainda copia, e em todas as esferas, não apenas nas camadas mais populares. O problema está na não-memória das pessoas, que é uma coisa clara e óbvia por ser o Brasil um país novo. O dinheiro está mudando de mãos, e essas pessoas que vêm de outras classes e adquirem poder aquisitivo não podem negar o passado em prol de uma estética ostensiva ou que vai posicioná-los num patamar de padrão social que acreditam ser mais aceitos. Mas leva tempo para mudar a mentalidade.
Hoje se fala muito em design acessível, mas as peças criadas por designers são sempre mais caras e nem sempre acessíveis à maioria. Quando isso vai mudar?
Não é questão de mudar. O termo design anda meio desgastado, pois tudo é design. Mas as pessoas se esquecem que além da estética, que é muito importante, existe a função. É claro há peças que são caras mesmo e vão continuar sendo. Mas todos merecem ter produtos com as duas características, seja numa loja de grife ou numa loja popular. É uma questão de equacionar a produção, o que não é fácil. Mas, não é porque é barato que precisa ser malfeito, sem qualidade. No Brasil, as indústrias estão mais conscientes disso atualmente.
Fale sobre os projetos com quais está envolvido no momento.
Em vários, como o novo hotel de luxo da Micasa (grife de móveis em São Paulo), com apenas dois quartos, exclusivíssimo, que estamos fazendo na cidade de São Paulo com tecnologia sustentável, cujo material é retirado do próprio terreno e todos os elementos da natureza vão ser reaproveitados para gerar benefício de consumo interno. As obras começam no segundo semestre deste ano e a previsão é inaugurar no ano que vem. Também estamos fazendo dois lounges no São Paulo Fashion Week, um para Melissa e outro para o site WGSN junto com o Shopping Iguatemi. Estou envolvido no projeto social em Blumenau (SC) junto com a Suvinil para pintar os abrigos dos desabrigados pelas chuvas. Estamos capacitando os moradores a virar pintores. Eu já fui para lá quatro vezes desde a época da catástrofe. Criei o projeto, fiz os contatos e vou sugerir workshops para criar uma cartela de cores para pintar os espaços. Com isso, eles estão conquistando dignidade e autoestima neste momento tão delicado da vida deles. Imagino que até o final do ano esteja finalizado. Acho que isso acaba virando um projeto de multiplicação, porque vemos hoje acontecer a mesma situação no Norte e Nordeste.
Com todos os projetos e viagens, como concilia profissão e família?
Sempre dá tempo para tudo. Me dedico muito ao trabalho, mas quando estou com a minha família, fico por inteiro.