Diálogo, sexo e carinho podem ajudar a evitar a depressão
Foto: Terra
Fabrício Escandiuzzi
Sexo de qualidade, uma vida com ritmo mais tranqüilo e descontração podem ser grandes "remédios" contra a depressão. Essa é a opinião do médico Welson Geraldo Souza Pereira, 54 anos, que ficou conhecido em todo o Brasil em setembro do ano passado, após moradores de Blumenau, em Santa Catarina, denunciarem que ele estaria indicando sexo às pacientes que solicitavam antidepressivos.
Veja também:
» Depressão, o mal do século 21
» Acabe com a preguiça sexual
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» Você tem alguma dica para evitar a depressão
Mineiro, Welson é formado em Medicina pela Universidade Nacional de Rosário, pós-graduado em Medicina Comunitária pela Universidade Federal do Paraná e formado em Psicopatologias e Saúde Mental pela PUC de Curitiba. Ele continua defendendo não só o sexo de qualidade, mas também um novo ritmo de vida às pessoas.
Seis meses depois da "indicação" o médico não atende mais no posto onde a polêmica foi criada, mas continua trabalhando normalmente como médico da família. Ele enfrentou um processo no Conselho Regional de Medicina e foi absolvido este ano.
De acordo com Welson, o lazer, a qualidade de vida, a descontração e a atividade sexual são necessidades básicas do ser humano. "Capazes de nos livrar de qualquer fluoxetina", diz.
Ele continua combatendo a distribuição exagerada de antidepressivos à comunidade e ganhou apoio de vários profissionais da saúde e de pacientes. Também incentiva que os pais conversem com os filhos sobre sexo e não tratem o assunto como um grande tabu. "É preferível distribuir camisinhas agora do que antidepressivos depois, quando a criança já se tornou um adulto infeliz"
Como foi conviver com toda essa polêmica gerada pela indicação de sexo aos pacientes?
Welson: Eu fui compreendido por grande parte das pessoas e recebi o apoio necessário. Minha indicação nunca foi o sexo como uma coisa isolada e promíscua. Indiquei a qualidade de vida às pessoas e, entre os requisitos para uma boa qualidade de vida está o sexo de qualidade, com carinho, com respeito. É a saúde mental que está em jogo. Não é simplesmente a pessoa ir a um posto de saúde e pedir fluoxetina sempre que fica chateada. Era isso que estava acontecendo.
Então o senhor não é contrário à distribuição de antidepressivos?
Welson: Não. Mas é que, antes de mais nada, é preciso de um diagnóstico do médico. Tem quem pensa que fluoxetina emagrece e por isso se dirige até o posto de saúde para pedir o remédio. Estar chateado, triste ou abalado emocionalmente não significa a necessidade de utilizar este tipo de medicamento. Em alguns quadros o uso é necessário, mas em outros não trará benefício algum. Nós, médicos, temos que buscar critérios para essa distribuição e, antes disso, tentar mudar alguma coisa na vida do paciente.
Por isso então a importância da mudança de hábitos?
Welson: Sim. A preocupação é prevenir, não só os problemas orgânicos, mas também a saúde mental. O que acontece é que a ciência só se preocupa com o corpo em si e com o bem estar físico, e esquece que na maioria das vezes a maior dor não é a física. A dor maior é a psíquica. Por isso, a necessidade de uma terapia alternativa.
O lazer, incluindo o sexo, são necessidades do homem moderno que não podem ser deixadas de lado?
Welson: O ritmo de vida do homem moderno tem transformado o lazer em algo supérfluo. Caminhar, andar de bicicleta, dialogar, sentar num bar para um happy hour e rir um pouco. Essas coisas estão sendo relegadas ao segundo plano. É preciso manter contato inter-pessoal com outras pessoas, conversar sobre alegrias, tristezas, problemas e soluções. Mas a paranóia em que vivemos, a insegurança, as condições de trabalho e metas a serem atingidas, tudo isso transforma as pessoas em seres fechados para a vida.
E a sexualidade também fica prejudicada com esse ritmo de vida? Welson: Ela tem que ser revista. É uma coisa natural, que todo mundo faze que, entretanto, não é debatida dentro de casa com a atenção que merecia. Os pais têm que conversar, o jovem quer conversar e este é o grande desafio hoje. É preciso superar a dificuldade, o tabu imposto ao longo dos anos e conversar com os filhos. Eles têm que saber como se cuidar, usar preservativos, tomar cuidado com as relações e se os pais conversam, a situação fica mais light, mais leve. Por isso, distribuir camisinhas em escolas não é uma afronta, algo tão pecaminoso, muito menos um estímulo à promiscuidade. Isso força o diálogo. Agora, os pais têm que assumir a responsabilidade, guardar os tabus e conversar mais com seus filhos.
Mas o Brasil não é um país liberal? Temos Carnaval, a mídia que trata do assunto normalmente....
Welson: Acho que é importante falar de uma sexualidade própria do brasileiro. Uma sexualidade verde-amarela. Somos diferentes do povo europeu, dos norte-americanos e dos asiáticos quando o assunto é sexo. Temos influências de várias etnias, somos um País tropical, onde a exposição do corpo é completamente liberada, diferente de um local nórdico, por exemplo. Os ritmos, os sons e até muitas letras da música remetem ao sexo. Por que então tanto choque quando um médico diz que é preciso buscar o sexo de qualidade? No nosso clima, até mesmo as meninas menstruam mais cedo do que a média das européias, por exemplo. Por que então deixar o assunto em último plano e não conversar isso dentro de casa? Mas não é dialogar com preconceito, com medo. É tratar o sexo como algo normal. Sexualidade não é pornografia e ás vezes existe essa confusão. Gosto de fazer palestras sobre sexualidade nas escolas e tenho tido uma receptividade imensa. Eles querem saber sobre camisinha e sobre doenças sexualmente transmissíveis.
O senhor ainda encontra resistências numa cidade reconhecidamente conservadora como Blumenau após a polêmica do ano passado?
Welson: De jeito nenhum. Recebi muito apoio de jovens e idosos e estou feliz por poder conversar com a população. A maioria das pessoas entendeu o meu recado: eu quero ajudá-las a ter uma vida melhor, sem necessidade de fluoxetina ou outro tipo de medicamento antidepressivo. Ganhei o apoio da classe médica, fui absolvido no processo do Conselho Regional de Medicina, que entendeu a minha intenção e viu que não feri o Código de Ética Médico. Foi um problema cultural e esta questão já está superada.
Relatórios da Secretaria de Segurança Pública mostram que Blumenau é a localidade com maior índice de suicídio do estado. Além disso, são distribuídos, anualmente, 1,2 milhão de antidepressivos. O desafio agora é reverter esse quadro?
Welson: Sim. Os antidepressivos são medicamentos espetaculares, mas só devem ser utilizados com critérios, como eu disse antes. Temos muitas opções, como conversar, caminhar, praticar exercícios, dançar, rir, entre outras coisas. O primeiro passo é mudar os hábitos, procurar coisas saudáveis e prazerosas. Inclusive a sexualidade. Deixar de lado um pouco a correria imposta pelo mercado de trabalho, que hoje está afetando a todos, mas a mulher com mais gravidade do que imaginamos. A imagem passada atualmente é muito cruel para as mulheres. É o consumo. Quem não tem o corpo perfeito na roupa ideal, estaria fadada ao fracasso. Não é assim... Por isso é importante que toda a comunidade esteja engajada nesse processo: igreja, escola, poder público e mídia. Os homens também têm que ser conscientizados. Porque a mulher trabalha e cumpre suas metas e responsabilidades como qualquer homem e, depois, muitas têm que cuidar da casa e estarem dispostas a cuidar do marido. De que jeito? É nesse ponto que o diálogo ganha espaço fundamental dentro de um casamento.
Então o que o senhor indica para os casais do mundo moderno?
Welson: Diálogo, amor e carinho.
Sexo de qualidade, uma vida com ritmo mais tranqüilo e descontração podem ser grandes "remédios" contra a depressão. Essa é a opinião do médico Welson Geraldo Souza Pereira, 54 anos, que ficou conhecido em todo o Brasil em setembro do ano passado, após moradores de Blumenau, em Santa Catarina, denunciarem que ele estaria indicando sexo às pacientes que solicitavam antidepressivos.
Veja também:
» Depressão, o mal do século 21
» Acabe com a preguiça sexual
Participe:
» Você tem alguma dica para evitar a depressão
Mineiro, Welson é formado em Medicina pela Universidade Nacional de Rosário, pós-graduado em Medicina Comunitária pela Universidade Federal do Paraná e formado em Psicopatologias e Saúde Mental pela PUC de Curitiba. Ele continua defendendo não só o sexo de qualidade, mas também um novo ritmo de vida às pessoas.
Seis meses depois da "indicação" o médico não atende mais no posto onde a polêmica foi criada, mas continua trabalhando normalmente como médico da família. Ele enfrentou um processo no Conselho Regional de Medicina e foi absolvido este ano.
De acordo com Welson, o lazer, a qualidade de vida, a descontração e a atividade sexual são necessidades básicas do ser humano. "Capazes de nos livrar de qualquer fluoxetina", diz.
Ele continua combatendo a distribuição exagerada de antidepressivos à comunidade e ganhou apoio de vários profissionais da saúde e de pacientes. Também incentiva que os pais conversem com os filhos sobre sexo e não tratem o assunto como um grande tabu. "É preferível distribuir camisinhas agora do que antidepressivos depois, quando a criança já se tornou um adulto infeliz"
Como foi conviver com toda essa polêmica gerada pela indicação de sexo aos pacientes?
Welson: Eu fui compreendido por grande parte das pessoas e recebi o apoio necessário. Minha indicação nunca foi o sexo como uma coisa isolada e promíscua. Indiquei a qualidade de vida às pessoas e, entre os requisitos para uma boa qualidade de vida está o sexo de qualidade, com carinho, com respeito. É a saúde mental que está em jogo. Não é simplesmente a pessoa ir a um posto de saúde e pedir fluoxetina sempre que fica chateada. Era isso que estava acontecendo.
Então o senhor não é contrário à distribuição de antidepressivos?
Welson: Não. Mas é que, antes de mais nada, é preciso de um diagnóstico do médico. Tem quem pensa que fluoxetina emagrece e por isso se dirige até o posto de saúde para pedir o remédio. Estar chateado, triste ou abalado emocionalmente não significa a necessidade de utilizar este tipo de medicamento. Em alguns quadros o uso é necessário, mas em outros não trará benefício algum. Nós, médicos, temos que buscar critérios para essa distribuição e, antes disso, tentar mudar alguma coisa na vida do paciente.
Por isso então a importância da mudança de hábitos?
Welson: Sim. A preocupação é prevenir, não só os problemas orgânicos, mas também a saúde mental. O que acontece é que a ciência só se preocupa com o corpo em si e com o bem estar físico, e esquece que na maioria das vezes a maior dor não é a física. A dor maior é a psíquica. Por isso, a necessidade de uma terapia alternativa.
O lazer, incluindo o sexo, são necessidades do homem moderno que não podem ser deixadas de lado?
Welson: O ritmo de vida do homem moderno tem transformado o lazer em algo supérfluo. Caminhar, andar de bicicleta, dialogar, sentar num bar para um happy hour e rir um pouco. Essas coisas estão sendo relegadas ao segundo plano. É preciso manter contato inter-pessoal com outras pessoas, conversar sobre alegrias, tristezas, problemas e soluções. Mas a paranóia em que vivemos, a insegurança, as condições de trabalho e metas a serem atingidas, tudo isso transforma as pessoas em seres fechados para a vida.
E a sexualidade também fica prejudicada com esse ritmo de vida? Welson: Ela tem que ser revista. É uma coisa natural, que todo mundo faze que, entretanto, não é debatida dentro de casa com a atenção que merecia. Os pais têm que conversar, o jovem quer conversar e este é o grande desafio hoje. É preciso superar a dificuldade, o tabu imposto ao longo dos anos e conversar com os filhos. Eles têm que saber como se cuidar, usar preservativos, tomar cuidado com as relações e se os pais conversam, a situação fica mais light, mais leve. Por isso, distribuir camisinhas em escolas não é uma afronta, algo tão pecaminoso, muito menos um estímulo à promiscuidade. Isso força o diálogo. Agora, os pais têm que assumir a responsabilidade, guardar os tabus e conversar mais com seus filhos.
Mas o Brasil não é um país liberal? Temos Carnaval, a mídia que trata do assunto normalmente....
Welson: Acho que é importante falar de uma sexualidade própria do brasileiro. Uma sexualidade verde-amarela. Somos diferentes do povo europeu, dos norte-americanos e dos asiáticos quando o assunto é sexo. Temos influências de várias etnias, somos um País tropical, onde a exposição do corpo é completamente liberada, diferente de um local nórdico, por exemplo. Os ritmos, os sons e até muitas letras da música remetem ao sexo. Por que então tanto choque quando um médico diz que é preciso buscar o sexo de qualidade? No nosso clima, até mesmo as meninas menstruam mais cedo do que a média das européias, por exemplo. Por que então deixar o assunto em último plano e não conversar isso dentro de casa? Mas não é dialogar com preconceito, com medo. É tratar o sexo como algo normal. Sexualidade não é pornografia e ás vezes existe essa confusão. Gosto de fazer palestras sobre sexualidade nas escolas e tenho tido uma receptividade imensa. Eles querem saber sobre camisinha e sobre doenças sexualmente transmissíveis.
O senhor ainda encontra resistências numa cidade reconhecidamente conservadora como Blumenau após a polêmica do ano passado?
Welson: De jeito nenhum. Recebi muito apoio de jovens e idosos e estou feliz por poder conversar com a população. A maioria das pessoas entendeu o meu recado: eu quero ajudá-las a ter uma vida melhor, sem necessidade de fluoxetina ou outro tipo de medicamento antidepressivo. Ganhei o apoio da classe médica, fui absolvido no processo do Conselho Regional de Medicina, que entendeu a minha intenção e viu que não feri o Código de Ética Médico. Foi um problema cultural e esta questão já está superada.
Relatórios da Secretaria de Segurança Pública mostram que Blumenau é a localidade com maior índice de suicídio do estado. Além disso, são distribuídos, anualmente, 1,2 milhão de antidepressivos. O desafio agora é reverter esse quadro?
Welson: Sim. Os antidepressivos são medicamentos espetaculares, mas só devem ser utilizados com critérios, como eu disse antes. Temos muitas opções, como conversar, caminhar, praticar exercícios, dançar, rir, entre outras coisas. O primeiro passo é mudar os hábitos, procurar coisas saudáveis e prazerosas. Inclusive a sexualidade. Deixar de lado um pouco a correria imposta pelo mercado de trabalho, que hoje está afetando a todos, mas a mulher com mais gravidade do que imaginamos. A imagem passada atualmente é muito cruel para as mulheres. É o consumo. Quem não tem o corpo perfeito na roupa ideal, estaria fadada ao fracasso. Não é assim... Por isso é importante que toda a comunidade esteja engajada nesse processo: igreja, escola, poder público e mídia. Os homens também têm que ser conscientizados. Porque a mulher trabalha e cumpre suas metas e responsabilidades como qualquer homem e, depois, muitas têm que cuidar da casa e estarem dispostas a cuidar do marido. De que jeito? É nesse ponto que o diálogo ganha espaço fundamental dentro de um casamento.
Então o que o senhor indica para os casais do mundo moderno?
Welson: Diálogo, amor e carinho.
- Especial para Terra




