Comportamento

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17 de janeiro de 2014 • 10h22 • atualizado às 12h25

Ninfomania: vício em sexo, masturbação e culpa caracterizam a doença

Busca pelo prazer a qualquer preço, descontrole sobre o próprio corpo e destruição da própria vida são alguns dos sintomas da compulsão sexual

No filme Ninfomaníaca, a jovem Joe pratica sexo compulsivamente
Foto: Divulgação
  • Thais Sabino
 

Depois do drama de Brandon (Michael Fassbender), um homem de meia idade que assiste à sua vida desmoronar pelo vício incontrolável no sexo, na produção Shame, de Steve McQueen, é a vez de Joe (Stacy Martin) trazer à tona uma doença dificilmente diagnosticada, motivo de sátira e discriminação. No filme Ninfomaníaca, uma jovem “distribui” o próprio corpo a homens de vários perfis, pratica sexo oral sem repúdio e chega próximo à morte pela necessidade de obter prazer. O filme do diretor Lars Von Trier mostra o sexo pelo viés da doença e que o mesmo ato fonte de prazer para pessoas saudáveis, pode ser a destruição para um compulsivo sexual.      

E “destruição” não é uma palavra excedida para as consequências da doença: uma pesquisa feita pelo Hospital das Clínicas em 2013 mostrou que 22% dos diagnosticados correm risco de suicídio. “Minha vida era calcada no sexo e tudo tinha conotação sexual para mim. Era um aditivo forte e fácil”, afirmou Maria*, doente em tratamento há quase nove anos. Nas praias do Rio de Janeiro, na academia e nos bares todas as pessoas a conheciam. O que começou com um problema de autoafirmação evoluiu e Maria passou a fazer sexo com vários parceiros diariamente, mesmo contrariando sua consciência: “eu dizia sim querendo dizer não”.

Filme retrata vida de jovem compulsiva por sexo e destruição causada pela doença
Foto: Divulgação

A falta de controle é o que caracteriza a doença: “sempre que existe um prejuízo na vida profissional, social ou familiar da pessoa”, de acordo com o psiquiatra do Hospital Santa Cruz, Edson Hirata. Os primeiros sintomas, segundo o psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina de Petrópolis Eduardo Birman, ocorrem no final da adolescência e início da vida adulta. No entanto, é comum a visão da necessidade de masturbações frequentes e apetite sexual elevado como comportamentos normais para um adolescente. “O doente procura tratamento lá pelos 30 anos”, disse Hirata. A história de Maria é ainda pior: a perda da virgindade aos 17 anos foi o estopim para a compulsão sexual e ela só conseguiu engatar no tratamento quase 30 anos depois, aos 45.

 “Quando eu estava com 16 para 17 anos conheci um professor de história bem mais velho e ele me chantageou: disse que me namoraria se eu fizesse sexo com ele. Ele sumiu, nunca mais apareceu, engravidei e minha mãe me levou para fazer um aborto. Ficou tudo banalizado para mim, a leitura que comecei a fazer foi: engravidou, faz aborto. Comecei a fazer sexo compulsivamente e a beber muito porque não dava para fazer careta”, relatou Maria. Em meio a toda promiscuidade, ela fantasiava que um dos parceiros sexuais se apaixonaria e a pediria em casamento. No entanto, mal sobrava tempo para eles se conhecerem: “o sexo vinha em primeiro, sempre na frente, não era' vamos nos conhecer e depois rola sexo legal'. Era ao contrário, rola o sexo e aí você vai gostar de mim”, contou.

O relacionamento com o pai provocava ciúmes na mãe que a via como rival, a maltratava e criticava. Segundo o representante nacional do Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA,) é comum os compulsivos sexuais terem histórico de sofrimento e vazio existencial. “O sexo vira uma forma de anestesia, assim como comida, jogos, álcool e drogas”, afirmou. Maria já demonstrava comportamentos alarmantes aos 8 anos, quando exibia as partes íntimas para as primas e familiares, brincava sem supervisão com outras crianças e espiava a prima que “fazia de tudo com colegas da faculdade no quarto” pela fechadura, além de assistir aos abusos sexuais contínuos sofridos pelo irmão. “Eu ouvia meus pais fazendo sexo, minha mãe gemia o tempo todo, dava para a vizinhança inteira ouvir”, relatou ela que coloca culpa na família desestabilizada para a origem do problema.

Sexo, sexo e mais sexo
A compulsão sexual, antes conhecida como ninfomania em referência a pacientes mulheres e satiríase para homens, segundo Wany, já é tratada pela mesma terminologia. De acordo com Birman, é um transtorno mental e do comportamento. Com mais de 30 anos de atendimentos de casos, Wany contou que o diagnóstico se dá quando a compulsão à masturbação, vida em função do sexo, perda de censura e prática de sexo nas ruas ou em qualquer lugar e interrupções no trabalho para a satisfação sexual se instalam por mais de seis meses. “Nesse tempo, a pessoa já perdeu trabalho, a família se afastou e o casamento ficou comprometido”, citou a psicóloga como possíveis consequências.

“Eu é que comia os homens. Meu pai morreu quando eu estava com 18 anos e me deixou um imóvel. Vendi e torrei todo o dinheiro com sexo, drogas e rock n’ roll”, lembrou Maria. Quando precisou de emprego, mais uma vez, ela usou o sexo: “mantive vários trabalhos assim, tinha relações com o dono de uma confecção de roupas, eu ia a entrevistas com aquela função sexual, jogando sedução, se fosse homem eu seduzia e funcionava”, contou. Na época, Maria considerava o próprio corpo o que chamou de “coquetel molotov de sexo e amor”.

A personagem Joe pratica sexo promíscuo, em lugares inadequados e com mais de um parceiro ao mesmo tempo
Foto: Divulgação

Wany lembrou do caso de um garoto homossexual compulsivo sexual que pediu ajuda à psicóloga: “ele só obtinha prazer através do sexo anal, então, toda hora ele precisava ir ao banheiro e introduzir o dedo no ânus”, relatou. Segundo ela, o jovem havia acabado de perder o emprego por prejuízo no rendimento, já que ia ao banheiro com muita frequência. Outro paciente que marcou a história de atendimento da psicóloga foi a de um homem, casado com uma mulher que teve complicações na cesárea e, por isso, sentia dores no ato sexual. Ele era compulsivo e precisava de sexo a todo momento. “Como ela não queria, ele assistia a filmes pornográficos ao lado da mulher e se masturbava. No dia seguinte, se sentia mal. Mas logo retomava o comportamento”, contou Wany. “Às vezes, o intervalo entre uma e outra excitação dura apenas cinco minutos”, acrescentou a profissional.

Durante a compulsão sexual, o doente pratica o ato para satisfação por compulsão e logo depois sente remorso e culpa, disse Hirata.  “É uma sensação de vida dupla e de sujeira”, contou João*, em tratamento há 20 anos. Foi depois de anos que Maria conseguiu se apegar a um tratamento: “eu não aguentava mais meu próprio comportamento e não conseguia mudar”, lembrou.

Medicamentos usados contra depressão e ansiedade, e que combatam os sintomas de abstinência como dor abdominal, sudorese e taquicardia, são usados no tratamento da compulsão sexual, segundo os especialistas. Eles recomendam um período sem a prática de sexo para a retomada do controle. No entanto, a doença não tem cura. Maria sabe disso, ela segue à risca a proposta de abstinência e há seis anos não tem um parceiro sexual. “Estou desenvolvendo meu equilíbrio emocional, 50% com terapia, 50% com os encontros do DASA”, disse ela que pretende voltar à vida sexual ativa em breve.

De acordo com o representante nacional do conjunto de grupos anônimos, o DASA funciona de forma similar ao A.A (Alcoólicos Anônimos). “Seguimos a tradição de um grupo de mútua ajuda, que pela troca de experiências e o seguimento dos doze passos as pessoas se recuperam”, explicou. Segundo ele, nos dois primeiros anos é possível notar as melhoras nas áreas da vida. É recomendado que o doente passe um tempo introspectivo para o autoconhecimento, mas não pedimos para terminar um casamento, disse ele.

Há alguns anos, os doentes chegavam com todas as áreas da vida completamente destruídas. Mas, de acordo com o representante, as coisas mudaram: “estamos recebendo mais gente, o perfil está mais heterogêneo, temos a mesma quantidade de homens e mulheres, antes víamos uma média de 35 a 50 anos, hoje tem gente de 19 anos e até de 60. Claro que o perfil principal é de pessoas entre 30 e 55 anos”, descreveu. Com informação e a procura por ajuda mais cedo, os membros dos encontros ainda preservam alguns campos de convivência social ou profissional e fica mais fácil controlar a compulsão sexual. 

 

Depoimento

Quando eu estava com 16 para 17 anos, morria de vergonha do meu corpo, minha mãe sempre fazia críticas por eu ser magrinha. Frequentava muito a Barra (Barra da Tijuca) e em 1976 comecei a frequentar o Camping do Brasil. As outras garotas eram encorpadas, tinham casa na Barra e quis imitar. Achei que as frequentadoras de lá não eram mais virgens e eu morria de vergonha por ainda ser.

Conheci um cara bem mais velho, professor de história, e ele me chantageou: disse que me namoraria se eu fizesse sexo com ele. Eu fiz e ele sumiu, nunca mais apareceu. Tive uma gravidez e minha mãe me levou para fazer o aborto. Aquilo ficou banalizado para mim, a leitura que eu fazia era: engravidou, abortou. Comecei a fazer sexo compulsivamente e a beber muito porque não dava para fazer careta.

Me relacionava com homens ricos e poderosos, sempre na fantasia de que ele ia se apaixonar e se casar comigo. Mas o sexo vinha sempre na frente, não era 'vamos nos conhecer e depois rola sexo legal', era ao contrário, rola o sexo e você vai gostar de mim.

Nos meus 19 e 20 anos, na fase de trabalhar, eu sempre ia a entrevistas com uma função sexual de arrumar o emprego por conta do sexo. Mantive trabalhos através do sexo, como representante comercial em uma confecção de roupas. Aquele sentimento que eu tinha desde lá atrás de ‘olha, como ela é magrinha, coitadinha’ me fazia malhar muito para ficar com um corpão. Meu corpo era muito bonito e junto com isso vinha minha sedução, simpatia, eu era um coquetel molotov de sexo e amor.

Eu ficava inebriada pela energia sexual, topava tudo, dizia sim querendo dizer não. Precisei de tempo para identificar a história toda e descobri que meu problema começou muito cedo. Aos oito anos eu já me pegava mostrando os órgãos genitais para minhas primas e familiares, ficava olhando no buraco da fechadura a outra prima que combinava de estudar e fazia de tudo com os colegas de faculdade no quarto. Descobri que fui abusada pelo meu pai fazendo terapia, vi meu irmão homossexual ser abusado e apanhar diversas vezes, ouvia meus pais fazendo sexo, minha mãe gemia o tempo todo, dava para a vizinhança inteira ouvir.

Já frequento o DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos) há nove anos e estou há seis anos sem sexo. Agora estou em um momento de resgatar todas as etapas da minha vida, eu vou poder voltar a fazer sexo, mas precisei desse tempo de abstinência para poder me conhecer, se eu não tivesse feito isso não teria condição de descobrir tudo isso a meu respeito.

*Os nomes verdadeiros dos entrevistados foram preservados

Dependentes de Amor e Sexo Anônimos: http://www.slaa.org.br/

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