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Dona de agência de namoro: "homem que pede mulher que ganha mais é trambiqueiro"

Sites de namoro apresentam a situação financeira do candidato, o que influencia nas escolhas dos parceiros

17 set 2013
09h18 atualizado às 16h39
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09h18 atualizado às 16h39
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Para Márcia, mulher de Alexandre, "quando a gente se gosta, o dinheiro não é impedimento"
Para Márcia, mulher de Alexandre, "quando a gente se gosta, o dinheiro não é impedimento"
Foto: Reprodução

Quem nunca ouviu a máxima "os opostos se atraem"? A famosa frase feita já foi muito usada para afirmar que grande parte do segredo do sucesso de relacionamentos está nas diferenças. Mas há quem diga o contrário e garanta que a regra vem perdendo força. E esta visão pode ser justificada pelos cadastros das agências de encontros, nas quais os candidatos preenchem fichas que podem chegar a ter mais de mil perguntas, que vão desde peso e altura, até alergias, consumo de medicamentos, prática de exercícios físicos, faixa salarial e bens que possui.

Com o cadastro, as empresas cruzam informações e encontram pessoas que têm características que o outro pediu e, geralmente, são requisitos próximos do estilo de vida de quem está na procura por um namoro. Recentemente, uma pesquisa com agências de encontros britânicas concluiu que a situação financeira dos possíveis candidatos está no topo da lista destas cobranças feitas para um encontro.

Aqui no Brasil, a situação financeira faz parte das exigências, mas não é o motivo principal das atenções dos futuros casais. “O foco dos brasileiros é, em primeiro lugar, a saúde física e sexual, seguida pela situação financeira e, depois, a emocional”, explica Cláudya Toledo, fundadora da agência A2 Encontros, que está há 21 anos no mercado e já realizou mais de cinco mil casamentos entre seus clientes.

Mas, segundo ela, a saúde do bolso está incluída no pacote do “relacionamento pretendido” já que, com base nos extratos do cartão de crédito, é possível filtrar as pessoas que têm o mesmo nível social e cultural.  

Foi este filtro que levou o empresário paulistano do ramo da informática Pedro Augusto, de 30 anos, a buscar os serviços da Lunch 42 - empresa que cobra até R$ 6 mil reais por um ano de contrato.  Não afeito a badalações, Pedro viu na agência uma boa oportunidade de achar uma namorada. Há três meses, ele já teve cinco encontros com pessoas diferentes e com pessoas que tenham os mesmos interesses que ele. “Não quero parecer pedante, mas quero alguém que tenha o mesmo poder aquisitivo, que tenha o mesmo acesso a certas coisas que eu. Eu não diria que é o ponto único a ser observado, mas o dinheiro é fundamental porque, de uma forma ou de outra, te coloca em situações similares”, contou.

Sheila Rigler, no mercado há 18 anos como fundadora da empresa curitibana Par Ideal – agência voltada para classes A e B, na qual 95% dos clientes tem nível superior e pós-gradução  -  explica que as cifras e a faixa salarial em si não são a principal preocupação nem motivo de eliminação, mas que elas servem como parâmetro de observação da educação e comportamento social que o dinheiro às vezes pode proporcionar. “Já aconteceu comigo. Aqui, o cliente pode ser riquíssimo, mas se não um bom nível cultural, as pessoas não vão querer sair com ele. Então, o dinheiro não prevalece, ele não adianta se não tiver educação”, explica.

Além do comportamento, as diferenças salariais entre homens e mulheres ainda continuam em pauta na hora do encontro e, segundo ela, um homem não aceita sair com uma mulher que ganhe mais e nem uma mulher quer se encontrar com um homem que ganhe menos que ela. “Se vier um homem e me pedir uma mulher que ganhe mais que ele, ele é trambiqueiro, quer dar o golpe do baú. Os homens ainda são machistas”, conta Sheila. 

O servidor público Júnior*, de 40 anos, não vê problema em sair com uma mulher que ganhe mais e acredita que o que conta é o “nivelamento cultural” e ter estilos de vida parecidos. “Acho que tem que ter afinidades e objetivos parecidos. Se for tudo oposto, complica. Tem que ter a mesma maneira de ser, de agir, de lidar com o dia a dia. Claro que algumas coisas são diferentes, mas vão se complementando aos poucos”, afirma. Recentemente, ele mudou-se de Brasília para Curitiba e procurou os serviços da Par Ideal como forma de conhecer pessoas para um relacionamento sério na nova cidade e, há pouco mais de dois meses, ele conheceu sua atual namorada.

Pode parecer que estas exigências são novas, mas elas apenas deixaram o disfarce das mesas de bares para preencher os formulários de agências de encontros. “Se nós disséssemos que não observamos a situação financeira das pessoas seríamos hipócritas. Se disséssemos que preferimos conhecer um pé rapado a um homem estabilizado não seria verdade. É óbvio que vamos sempre preferir encontrar alguém que tenha mais afinidade conosco em vários campos”, explica a psicóloga especialista em relacionamento Pamela Magalhães.

No entanto, ela ressalta que esta pesquisa, cheia de tantas exigências pré-estabelecidas, pode se tornar a tradução de uma maneira de mascarar o medo da frustração e da desilusão e torna a busca amorosa um exercício “engessado”. Para ela, focar-se somente nestes pontos deixa de lado a “espontaneidade” da relação, “aquela coisa que bate, inexplicável, que faz ouvir sininhos”.

“De fato, a situação financeira proporciona um terreno melhor para a relação, mas não é garantia de sucesso. Essa mania de achar que existe um conjunto de pré-requisitos que promete um relacionamento perfeito é ilusória. Um relacionamento é um encontro de características que se complementam”, explica a profissional.

A gerente da agência de encontros Lunch 42, Mariana Yamada, afirma que, além do filtro social, as situações financeira e profissional ajudam ainda a escolher outras possíveis características das futuras pretendentes.  “Os homens não querem ser o único provedor da relação e, a partir do momento em que eles vêm que a mulher tem uma atividade que exija atenção, ela não será aquela pessoa carente, que liga o tempo todo”, afirma.

Estas mudanças sociais saem do nível afetivo e ganham também o universo legal.  Segundo Cláudya Toledo, atualmente os casais não se casam com união ou separação de bens, mas preferem fazer e manter um contrato pré-nupcial.  “Hoje em dia as pessoas têm consciência que o casamento é um contrato. É preciso, sim, saber da vida do outro, o que o outro faz, como ele lida com dinheiro para não se envolver em nenhuma fria”, diz.

Mas, a “moda antiga” ainda existe no ramo dos relacionamentos. Algumas pessoas olham outras características antes das situações financeira e social. A empresária Marcia Nunes, de 41 anos, descreveu ter se sentido assim há sete anos, quando conheceu seu marido, Alexandre, por meio de uma agência de encontros. “Quando a gente se gosta isso não é impedimento não. Digo que a aparência seria mais predominante”, afirma.

A aparência física está, sim, no topo da lista de exigências para o brasileiro e não é de hoje. No entanto, a maneira de olhar para isso e analisar a beleza mudou dos anos para cá. “Há 21 anos, apresentávamos um perfil por foto. Hoje, os clientes calculam o IMC da pessoa para ver se a mulher é gorda ou magra de acordo com peso e altura descritos na ficha”, conta Cláudya Toledo.

* o nome foi alterado por pedido do entrevistado

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Fonte: Terra
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